22 março 2008

em lisboa

a minha primeira páscoa em lisboa.
de certa maneira, uma cidade nova, uma vez que esta curva do tempo nunca se cruzou com este exacto espaço.

flanar pela cidade é como flanar pela vida - 'piece of cake'.

que dizer deste par de dias, ainda a meio?

* os serões entre amigos. se as festas tradicionais são festas de família, então estes amigos são (também) família. mera constatação do que já sabemos, mas ainda assim faz-nos pensar e ainda bem;

* a noite lisboeta, sem grandes diferenças face a outros dias. nos programas disponíveis (lux, maxime, bairro, associações mais 'underground'), nas massas juvenis que invadem as ruas, ao virar da noite, na atitude 'sem um certo sentido de reserva'. num país recolhido, ensimesmado, pode querer dizer que uma certa jovialidade, um certo desprendimento mais moderno podem estar a caminho. não é mau, nesta perspectiva. por outro lado, o excesso sempre a mostrar os dentes, a ânsia do aqui e agora, a euforia nem sempre a propósito fazem pensar no que ficou para trás. e nem tudo era mau, nesses dias de quaresma em que se jejuava, em que não se fazia barulho por respeito. como tudo, depende do 'underlying'. se for respeito pelos outros e por nós próprios, mesmo que por intermédia razão religiosa, fico com um travo agridoce. o sabor que eu próprio atribuiria à vida, já agora;

* o polícia jovem, educado, o senhor desculpe mas este lugar está reservado para o senhor ministro, queira desculpar. achei mal, por pressentir o porquê arcaízante; mas achei bem a educação, a ausência de prepotência. talvez haja esperança para a nossa polícia, metáfora óbvia do nosso país humano;

* o arrumador, afinal mais um desempregado. 50 anos, a conversa de sempre. uns minutos de atenção, uma moeda para amenizar as dificuldades, mais uma entrada para o meu longo caderno de 'beautiful losers'. acabar com votos de boas páscoa, apesar de tudo. tratar bem os outros, dar-lhes tempo, um bocadinho de nós, mostrar que todas as pessoas importam para alguém. custa assim tanto?

* passar pelo blog, aqui e ali, aproveitando web cafés, locais improváveis, a minha lata (relativa, mas lata em todo o caso). como agora, 17h09 exactas deste exacto sábado de aleluia, nesta exacta cidade. escrevo já para o futuro;

* descobrir são joão da cruz, religioso, místico e poeta espanhol. descobrir a sua vida, a beleza das suas palavras, a transcendência pelo mínimo. sentir-me tocado, ligado. qual é a palavra? é aquela que um dia usámos, lembras-te?, para explicar o que nos unia: cosmogonia, a partilha de uma cosmogonia;

* passear a correr pelo you tube e cair, por acaso, nas imagens dos adeptos dos liverpool a entoarem em uníssono o hino do clube 'you will never walk alone'. imagens do túnel de acesso, lá fora o som de umas dezenas de milhar de gargantas, perceber uma lágrima a cair no rosto do jogador em primeiro plano. são joão da cruz e os adeptos do liverpool. olhar os frames com a bandeira 'make us dream'. sim, make me dream, make us dream, please.

* sentir como nunca este apelo, esta necessidade de escrever, este fogo de estrelas que me rebenta por dentro. e pensar que esta meia-dúzia de entradas são apenas vestígios de uma torrente imparável, vertigem barroca, pirotecnia interior, fogo de santelmo caduco, folhas e vento. e amor.

3 Comments:

Blogger Vertigo said...

Este comentário foi removido pelo autor.

segunda-feira, março 24, 2008 12:43:00 da manhã  
Blogger Vertigo said...

terminaste em apoteose!!!

gosto muito de te ler,mesmo.traduzes sentimentos...

beijo grande,Gi.

segunda-feira, março 24, 2008 1:03:00 da manhã  
Blogger Abssinto said...

Um homem muito interessante, mesmo.

domingo, março 30, 2008 10:18:00 da tarde  

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