27 maio 2009

3 poemas de rui coias

dizia
que viajar é poder partir-se para o lugar
em frente,
que cada lugar só impressiona porque sugere
a visibilidade do próximo.
e que no fim, quando abandonamos tudo
e já não ouvimos senão o repique dos sinos,
as paisagens deixam de existir para não
passar do que a respiração liberta.
“o que nos conduz é podermos sepultar o
corpo noutro lugar;
porque em todos os sítios passados deixámos o corpo
à vista do lugar mais próximo.”
percebi, sem que mostrasse algum temor,
que havia descoberto a transparência do mundo,
que fora auxiliado pela face
suspensa dos viajantes.
e lembrei-me como o tempo havia de ensinar,
desde a juventude à velhice,
que onde a beleza assola habituamo-nos a uma pausa nos
olhos, nas mãos e nos olhos que são o que nos diz do
pouco do que nos fica sempre.


se quiseres que eu me perca
buscarei outra ilha.
esperarei a sombra diante dos olhos,
o milhafre na ravina de crisântemos.
ao longe, correndo para a primeira luz do dia,
estarei à tua espera,
acenando com a mão esquerda,
avançando sobre o mar.
não te esqueças,
aprendi um dia como deus nos traz um sono
leve que nos cega.


não é difícil um homem apaixonar-se.
ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga “estremeci
durante anos sem te abraçar.” agora é tarde.
agora é tarde sobre a terra cercada.
por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
“passei a vida a fugir para a tua boca,” e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.



rui coias